Comunicação: assunção semântica

“Nossa capacidade de comunicação não é medida pela forma como dizemos as coisas, mas pela maneira como somos entendidos” (Andrew S. Grove).

Segundo a definição, conotação é o uso da palavra com um significado diferente do original, criado pelo contexto. Exemplo: você tem um coração de pedra.

Já a assunção semântica é a especificação de sentido, em particular de referência, ou seja, tudo que falamos provoca no nosso interlocutor uma necessidade de buscar um sentido ou uma referenciação. Exemplo: a palavra “cão”. Se for dirigida a uma pessoa com formação militar, provavelmente provocará nela uma referenciação de uma parte da arma (cão do revolver, cão do rifle, etc), se for dirigida a uma pessoa de origem nordestina provocará nela uma referenciação de lúcifer, demônio, coisa ruim e se for dirigida a outro provavelmente a referenciação será do animal cachorro.

No ambiente profissional a assunção semântica deve ser levada em consideração em todo o processo de comunicação, pois as pessoas tendem a tomar como verdadeiras as suas especificações de sentido ou suas referências. E se considerarmos verdadeira a afirmação “a responsabilidade da comunicação é metade de quem faz e metade de quem recebe”, é mister tomarmos cuidado para que a comunicação cumpra seu papel em sua plenitude.

O importante na comunicação é o que o outro entendeu e não o que se quis dizer. A boa intenção é apenas o primeiro passo para que a comunicação seja efetiva, é necessário muito mais para que o objetivo seja atingido.

Peter Senge no livro “A Quinta Disciplina” diz que a maioria dos conflitos dentro das organizações são causados pela tal assunção semântica ou, se preferirem, definição distorcida ou entendimento errado da informação.

Uma informação mal divulgada pode gerar estresse, expectativa, conflito, retrabalho e perda de tempo. Uma informação não divulgada pode gerar ruído de comunicação, ansiedade, conflito e até boatos. Mas o pior que pode acontecer é a informação pela metade, incompleta, ausência de um final, sem conclusão, etc. As pessoas necessitam de um final para qualquer tipo de informação. Não queremos a informação pela metade. Um filme ou uma estória precisam ter um final e quando não temos o final, projetamos. Isso mesmo, quando não temos o final da estória, projetamos os nossos medos ou as nossas vontades.

Imagine que você ouviu a seguinte estória (é importante dizer que estória e história possuem a mesma origem etimológica e o mesmo significado, no entanto alguns autores usam estória para designar uma narrativa do cotidiano. É o que faremos aqui).

“Era uma vez uma moça bonita, inteligente e bem vestida que estava em um bar, quando chegou um rapaz também bonito, bem vestido e eles começaram a conversar. Em um dado momento ele pediu para levá-la para casa dela, pois já era tarde da noite, ela concordou. Ela falou onde morava e ele conduziu o veículo, até que em um determinado ponto do trajeto tomou um caminho totalmente desconhecido para ela… fim.”

Mas cadê o final? O que aconteceu?

Acredito que você ficaria no mínimo curioso em saber o que aconteceu com a moça. E é exatamente essa curiosidade, necessidade do complemento ou da conclusão que o fará criar um final para a estória. Para este exemplo você poderá imaginar que não aconteceu nada, o rapaz apenas pegou um caminho mais curto e ambos chegaram mais cedo em casa ou que aconteceu algo de ruim.

Quando recebemos uma informação incompleta fazemos a mesma coisa, projetamos o final com as nossas vontades ou com os nossos medos. Se o seu chefe disser “pessoal, no próximo mês teremos redução na nossa produção” e não especificar de que forma esta redução se processará, alguns pensarão (e entrarão em pânico) que haverá demissão, outros não pensarão nada, outros pensarão que haverá redução em uma determinada etapa da produção e aumento em outra, etc.

Tenham claro que em matéria de comunicação nada é obvio, as pessoas possuem grau de entendimento diferente, momentos diferentes e percepções diferentes. Pequemos pelo excesso, informação nunca é demais e as pessoas que trabalham contigo hão de agradecer.

Eu valorizo e tento entender todos os meandros da comunicação e a uso para elevar o nível das minhas relações. E você?

Adriano Magar
Coordenador de Control Desk/Telecom



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